Forte crise humanitária abala a população do Sudão do Sul – O Tempo

Matéria do Jornal O Tempo, da repórter Andréa Juste

Sudão do Sul – Independente, mas dependente

Com pouco mais de um ano de vida, o Sudão do Sul enfrenta uma das piores crises humanitárias dos últimos anos. Independente do Sudão desde 8 de julho do ano passado, a população sul-sudanesa, não árabe e, em sua maioria, cristã ou animista (de origem tribal), passa por atrocidades cometidas pelo vizinho árabe muçulmano e, assim, busca refúgio em campos internos ou em países fronteiriços.

“Mais de 170 mil sudaneses cruzaram a fronteira do país para escapar de conflitos e insegurança alimentar nos Estados de Nilo Azul e Kordofan do Sul, no Sudão”, afirma o diretor-executivo da organização Médicos Sem Fronteiras, Tyler Fainstat. Segundo agências humanitárias, nos campos, cerca de nove crianças morrem diariamente de doenças como diarreia.

Desde a independência, em 1956, o Sudão – assim como a maioria dos Estados africanos – apresenta uma separação de etnias e religiões devido a imposições das metrópoles europeias, que geraram países artificiais, segundo o cientista político Christian Lohbauer, membro do grupo de análise de conjuntura internacional da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo ele, o Sudão do Sul era uma província autônoma do Sudão desde 1956. Após o fim de quase 20 anos de guerra civil, em 2005, 99% dos sul-sudaneses aprovaram, em plebiscito feito em janeiro de 2011, a separação do país.

Assim, problemas estruturais, econômicos e de oposição sudanesa foram potencializados. “É um país sem estrutura alguma sob todos os pontos de vista: saneamento, estradas, escolas”, fala Lohbauer, destacando a falta de organização do governo, cujo presidente é o então líder do Exército revolucionário da província do sul, Salva Kiir Mayardit.

O Sudão do Sul sofre, ainda, com a restrição de recursos imposta pelos sudaneses, segundo Rodrigo Corrêa Teixeira, professor do Departamento de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e especialista em estudos africanos. Ele destaca que a estimativa de mortos nos últimos 15 anos passa dos 500 mil.

Petróleo. No caso da economia, “o tema torna-se ainda mais complexo”, segundo Teixeira, pois a China explora petróleo na região onde se originou o Sudão do Sul, mas o escoamento é feito pelo Sudão, que faz fronteira com o mar Vermelho.

“Na região Abyei, explora-se petróleo na fronteira dos dois países. O Sudão do Sul teria condição, mas é uma operação de grande investimento escoar petróleo por outros países, como o Quênia”, explica Lohbauer.

Assim, com tantos problemas estruturais, para Lohbauer, o novo país é “inviável como outros da África e da Ásia”. “É preciso haver um programa de desenvolvimento com recursos estrangeiros. Mas veja o mundo de hoje, Europa, Estados Unidos e Japão. Quem vai fazer um plano de desenvolvimento em um país com essas características? É uma situação muito difícil”, diz, referindo-se à crise econômica mundial.

O especialista questiona se a situação da população sul-sudanesa melhorou após a independência. “Ao menos hoje tem a independência formal. Pode ser dona de seu destino, teoricamente. Mas, na prática, ela passa pelas mesmas privações de antes, talvez piores, como rompimento de alimento e energia, pois isso não vinha do atual Sudão do Sul”, completa.

`Eles não têm um país para chamar de seu´, alerta ONU

Entre as ajudas humanitárias que o Sudão do Sul recebe nos últimos tempos, está o Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). Segundo o porta-voz no Brasil da entidade, Luiz Fernando Godinho, um dos auxílios é com a questão da nacionalidade dos sul-sudaneses.

“Com a criação do país, muitos que viviam no norte voltaram para o sul, onde antes moravam ou seus antepassados. Muitos não tinham documentos originais nem o reconhecimento do norte e estão em uma espécie de limbo na questão da cidadania. Eles não têm um país para chamar de seu. É um problema que surgiu com a criação do Sudão do Sul”, diz.

Segundo ele, a atuação da entidade, presente em diferentes áreas, como na fronteira com o Sudão e com outros países, envolve as duas populações refugiados e deslocados internos , que somam mais de 600 mil. “O ACNUR cuida da administração dos campos, proteção, registro dessas pessoas e atendimento de questões não alimentares”, conta, afirmando que a situação na região é “peculiar”.

“As Nações Unidas não podem substituir o país. O ACNUR ajuda o país a responder às necessidades que ele tem dentro de uma situação de crise humanitária”, diz. A entidade precisa da aprovação do governo local para trabalhar e conta com a parceria de organizações não governamentais, entre outras.

“Um problema sério é a questão de segurança, que afeta todos os atores humanitários no Sudão e no Sudão do Sul”, fala, ressaltando a violência sexual na região. Assim, o ACNUR oferece suporte psicossocial às vítimas.

Segundo ele, o orçamento da ACNUR para 2012 fica em torno de US$ 84 milhões (cerca de R$ 169,6 milhões), sendo que 98% correspondem a doações. O restante provém da ONU.

Sobre fmvalmeida

Jornalista fascinado pela África, Esportes, Internet e tudo que esta profissão proporciona. Contato: fmvalmeida@yahoo.com.br Twitter: @fmvalmeida Facebook: /fmvalmeida
Esta entrada foi publicada em Sudão do Sul, Uncategorized com as etiquetas , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s