“Eu tenho uma grande dúvida sobre o poder da literatura” – Entrevista Mia Couto

Eu não estava calmo para entrevistar Mia Couto. Isto é fato. Apesar de parecer muito tranquilo e simpático com seus entrevistadores, ele não deixa de ser um dos escritores africanos mais conhecidos e respeitados do mundo. Fui abordá-lo para fazer-lhe algumas poucas perguntas. Queria relacionar literatura e visibilidade africana, mas Mia Couto acabou revelando não acreditar muito no poder revolucionário de sua escrita, de seus livros, da literatura.

Foto feita durante entrevista no Imagem da Palavra, da Rede Minas. O programa com Mia Couto irá ao ar em 2011 (Créditos: Camila Lam)

Mia Couto tem 25 livros publicados e alguns destes traduzidos para cerca de 20 diferentes línguas. Possui em sua estante importantes prêmios como, por exemplo, o concedido pela União Latina. Em 1995, o seu primeiro romance ‘Terra sonâmbula’ foi considerado um dos 12 melhores livros africanos do século XX por um júri da Feira do Livro do Zimbabwe.

Vamos à entrevista com Mia Couto na íntegra.

Destino África: A África tem pouco espaço na imprensa mundial. Por que você acha que isso acontece e como você acha que a sua literatura pode ajudar a mudar um pouco isso?

Mia Couto: Eu acho que existe uma ideia preconceituosa sobre a África e toda gente acha que já sabe o que é África. Como se a África fosse uma coisa simples, uma coisa única. Há várias Áfricas, culturas, religiões, entidades africanas e elas têm diferentes sugestões para dar ao mundo. Há uma África que está acontecendo bem. Hoje há um crescimento econômico em África que é muito positivo em contraste com a crise internacional, por exemplo. A literatura… não o que eu posso fazer, mas a literatura não tem grande poder. Não sei bem porque razão. Mas ela pode mostrar uma África mais presente, mais proativa, mais capaz de sustentar a sua própria dignidade. Nós não podemos pedir aos outros, ao mundo, que nos ajude a constituir essa dignidade. Os africanos têm de construir a sua própria imagem.

Destino África: Você acha que essa mudança tem de partir somente dos africanos?

Mia Couto: Essa atitude de vítima não produz. Então é preciso que os africanos… Eu acho que eles estão fazendo isso, na medida em que podem também. Isso tem de ser uma conquista, é alguma coisa que não se pode pedir aos outros.

Destino África: No seu livro ‘Antes de nascer o mundo’, você usa a personagem portuguesa como um ponto importante de mudança na história. Partindo dessa ideia, como você acha que é a influência portuguesa hoje em Moçambique? Você acha que pode falar em novo tipo de colonialismo, ou é exagerar demais?

António Emílio Leite Couto nasceu na Beira, Moçambique, foi jornalista e hoje, além de escritor, trabalha como biólogo (Créditos: Camila Lam)

Mia Couto: Em primeiro lugar, na história deste livro essa portuguesa pode ser… é uma estrangeira, é alguém que é uma intrusa numa realidade ficcional, que funciona não exatamente porque é portuguesa, mas sim porque alguém, em contraste com uma visão apocalíptica do mundo, niilista do mundo, faz mostrar que exista alguém, que o mundo não acabou, que é uma mentira que está organizada naquela pequena família. Mas Portugal… não… eu acho que… digamos que Moçambique tem feito essa afirmação daquilo que a sua independência é possível no mundo de hoje. Não corresponde ao sonho, como sabia que tinha. Quer dizer, não há uma ideia de independência capaz de, nesse campo da política, produzir uma certa autonomia. Não foi possível. Mas não é uma questão da relação com a antiga colônia. É uma relação com o mundo. Portugal também não tem capacidade para mesmo que houvesse esse projeto neocolonial.

Destino África: Como você acha que sua literatura, sua escrita, seus livros podem ajudar a resolver os problemas, ou até ajudar a escancarar as mazelas, ou os fatos bons de Moçambique?

Mia Couto: Eu tenho sempre uma grande dúvida sobre o poder da literatura. A literatura não tem esse poder. O que a literatura pode é sugerir, é instigar o desejo de mudar, o desejo de criar outros mundos, o desejo de revelar essa diversidade de mundos que nós temos. Isso sim. Mas não creio que a literatura tenha esse poder num mundo que é controlado por outras lógicas; lógicas econômicas, políticas, etc. Essas sim.

* Fotos feitas durante entrevista para o Imagem da Palavra, Rede Minas.

Sobre fmvalmeida

Jornalista fascinado pela África, Esportes, Internet e tudo que esta profissão proporciona. Contato: fmvalmeida@yahoo.com.br Twitter: @fmvalmeida Facebook: /fmvalmeida
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