Boas surpresas do Fórum – Entrevista Ondjaki

Comecei a pesquisar sobre Ondjaki pouco antes de ir ao Fórum das Letras de Ouro Preto. Ele acabou por surpreender-me ainda mais em sua palestra – mesa, apresentação, o que você preferir – ao lado de Rodrigo Lacerda e mediado por Ricardo Aleixo, principalmente pelo seu pensamento rápido e verdadeiro. Sinceramente não conhecia suas obras, nem sequer sua existência. Acredito que isso acabou sendo bom, em partes. Consegui entrevistá-lo sem o nervosismo de quando fui ao encontro de Mia Couto, por exemplo. Um ligeiro nervosismo havia, claro, mas o jeito simpático e a fala fácil dele descomplicaram o processo. Agora me afundarei em suas obras, a começar pela premiada ‘AvóDezanove e o Segredo do Soviético’.

Foto feita durante entrevista no Imagem da Palavra, da Rede Minas. O programa com Ondjaki irá ao ar em 2011 (Créditos: Camila Lam)

Ndalu de Almeida, conhecido como Ondjaki, já escreveu 14 livros nos seus curtos 33 anos de vida. Começou em 2000 com o livro de poesias ‘Actu Sanguíneo’. Publicou obras de contos, romances, novelas, estórias e livros infantis. Membro da União dos Escritores Angolanos e da Associação Protetora do Anonimato dos Gambuzinos, ele já foi agraciado por vários prêmios, dentre eles o Jabuti, em 2010, na categoria ‘juvenil’ com o livro ‘AvóDezanove e o Segredo do Soviético’.

Vamos então à entrevista com Ondjaki na íntegra.

Destino África: Percebe-se que a África tem pouco espaço na mídia mundial. Tanto aqui no Brasil, na Europa e Estados Unidos, por exemplo, fala-se pouco da África na imprensa. Porque você acha que isso acontece? E como que você acha que a sua literatura pode levar um pouco dessa realidade africana para outros países e para a África em geral?

Ondjaki: Eu acho que há duas questões. Cada autor, com seu trabalho, contribui um pouco para isso. Cada bom livro africano que sai – seja da Angola, África do Sul, do Senegal… -, transporta duas barreiras. Ele transmite a ideia de que é possível escrever um livro independentemente da nacionalidade do escritor; é bom pensar na literatura africana simplesmente como literatura. Por outro lado, não é mal que essa literatura traga elementos regionais de cada país para desmistificar essa ausência da África. Porque há uma ideia de África una – isso não existe, são várias. E depois, não podemos esquecer-nos de uma coisa, quem são os produtores de informação atualmente? Não somos nós. As nossas agências não fazem notícia. Quem faz notícias é a BBC, é a CNN, é a agência de notícias da Alemanha; são as principais agências do mundo. A África faz notícia muito mais quando é vítima do que quando é protagonista. Você sabe que muitas vezes, por exemplo, a BBC evitava fazer reportagens sobre notícias boas do continente africano. Afinal, quem produz a informação tem o direito de incluir ou excluir. Cabe aos mais fracos lutar por aquilo que eu chamo de ‘protagonismo digno’. Que passem a falar também das boas notícias. Há tantas boas iniciativas. É como aqui no Brasil, na televisão. Porque que escolhem oito notícias ruins e duas boas? Não pode ser assim. Sim, sabemos que há crimes, sabemos que há drogas, mas não há tantas boas iniciativas? Não há ONGs nas favelas? O governo não faz coisas boas? Está tudo errado? Ou seja, é uma questão de perspectiva, de como olhar.

Destino África: Como você espera que a sua literatura influencie diretamente as pessoas de seu país e de outros, por exemplo, o Brasil?

Ricardo Aleixo, Rodrigo Lacerda e Ondjaki no Fórum das Letras de Ouro Preto (Créditos: Camila Lam)

Ondjaki: Para dizer a verdade, eu vejo a literatura como uma coisa mágica. Então, eu só espero que os meus livros influenciem quem se sinta tocado por eles, independentemente da nacionalidade. É só assim que o livro toca uma pessoa. Esse livro, para você, mudou uma pequena vírgula na sua vida, fez-lhe pensar num sentimento, deu-lhe uma nova ideia; então esse livro foi bom para você. Mas pode não ser para o seu vizinho. Às vezes roçamos, tocamos essa magia de uma maneira que ela influencia muito mais gente. Não sei dizer ao certo. O que interessa para mim é quando o leitor entra em contato comigo e eu vejo que o livro foi importante para essa pessoa. Seja uma página, ou o livro todo. Eu acho que é por isso que eu escrevo livros, para tocar alguém.

Destino África: Chega a ser para mudar a vida de alguém, ou aí já é exagero?

Ondjaki: Aí a pessoa fica muito contente quando alguém lhe conta uma história dessas “Ai, a minha vida estava muito mal e seu livro fez-me bem, seja por isso ou por aquilo…” A pessoa fica realmente… Não é sentir-se vaidosa. É que a pessoa se sente honrada. Como ser humano, tu sentes honrado por ter tocado a vida de outro ser humano. O resto é a fogueira das vaidades. É muito efêmero, é muito rápido. Quem se distrai com isso vê que é uma coisa muito rápida.

Destino África: Como você acha que a sua escrita pode ajudar a resolver as mazelas de seu país?

Ondjaki nasceu em Luanda, capital de Angola, e é formado em sociologia (Créditos: Camila Lam)

Ondjaki: Eu acredito que essa é uma função não só do escritor, mas de qualquer artista. O que o artista faz é problematizar. O Eugène Ionescu (dramaturgo romeno) dizia isso: a minha obrigação não é responder as questões, é colocar questões. Colocar questões no sentido de pôr em questão a humanidade, o seu país, o seu bairro, a sua família, os seus amigos. O livro pode fazer isso de uma maneira mais arrumada, conta uma história e problematiza determinadas coisas. E eu penso que o livro deve problematizar de uma maneira literária. Ensaio, jornalismo… isso já é outra história. Literariamente falando, é bom que o livro provoque alguma coisa. Alguma dissonância, alguma brecha… E a partir daí vem outro criador, que pega na sua brecha, na tua fenda, na tua martelada e ele vai dizer “Espere aí. Esse já deu um toque, então eu vou dar outro toque”. Ao fim de alguns anos, a literatura muda regimes, muda crenças, muda hábitos sociais. A parte descritiva da literatura serve também para falarmos, debatermos a questão humana. Todo o resto é consequência do ser humano, não é? Todas as questões sociais, políticas, históricas, elas têm um epicentro que é o ser humano. O ditador, o cidadão, o soldado, o médico… é em torno dessas pessoas que o mundo gira. A literatura às vezes faz isso: olha para o centro do furacão e diz “eu consegui expressar um bocadinho mais, faça você o próximo passo”. Eu acho que é isso, mas posso estar perfeitamente enganado. É importante que ponha isso… (risos)

*A primeira e última fotos foram feitas durante entrevista para o Imagem da Palavra, Rede Minas.

Sobre fmvalmeida

Jornalista fascinado pela África, Esportes, Internet e tudo que esta profissão proporciona. Contato: fmvalmeida@yahoo.com.br Twitter: @fmvalmeida Facebook: /fmvalmeida
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , . ligação permanente.

3 respostas a Boas surpresas do Fórum – Entrevista Ondjaki

  1. Camila diz:

    Entrevista inspiradora. Admiro Ondjaki, pois ele acredita que as palavras podem acrescentar e até mudar a vida de uma pessoa. =)

  2. Leonardo Ribeiro diz:

    Amo como a relação amorosa transparece só de ver os créditos. rsrs

    Quando eu estava vendo outro autor falar, reparei que o Ondjaki estava fazendo tai chi chui (não se é assim que escreve) na beira de uma piscina de hotel. Era estranho de início, mas era bonito ver ele dando espaço para sua forma de relaxamento e quem sabe de filosofia, apesar do frio, da chuva e da vergonha. Bonito de ver ele se dando um tempo no dia para meditar ao som de uma música de seu Ipod e da vista belíssima de OP, que nem eu sei se apreciei direito.

  3. Anderson Luuiz Viana diz:

    Tive a oportunidade de estar presente durante todo o Fórum das Letras em Ouro Preto e assisitir à mesa em que Ondjaki estava e interagir com ele (e o falastrão Rodrigo Lacerda) pelas perguntas à assistência, no belíssimo Cine Vila Rica. É uma figura excepcional, de língua afiada (no bom sentido!) e um pensador jovial e antenado com o cerne das grandes questões com as quais se confrontam a Literatura Africana de Língua Portuguesa, os escritores e arrtistas, bem como com valores como lealdade, dignidade humana, honestidade. E, claro, o poder “mágico” da literatura. Quem não conhece seus livros, não deveria perder mais tempo. É o encontro com um pensador que une leveza e sobridade: agradável e faz bem!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s