O ABC da AIDS/HIV

Uma das doenças que mais assolam a África é a AIDS. No Malawi esta questão não é diferente. Porém, assim como em outros países africanos (Uganda, por exemplo), no Malawi o descaso e a inércia no avanço da AIDS foram interrompidos dando lugar a um crescente combate a este grave problema.

O resultado disso é o decréscimo da porcentagem de malawianos infectados pelo vírus HIV, além da significativa melhora da qualidade de vida das pessoas já contaminadas por esta moléstia. Os números oficiais, apresentados pelo governo do país (infelizmente nem sempre confiáveis, principalmente neste continente), mostram uma queda de quase 5% no número de infectados pelo HIV nos últimos sete anos. Em uma população de cerca de 250 mil pessoas, isso, obviamente, significa 12,5 mil indivíduos a menos portadores do vírus.

Inicialmente, vamos a alguns fatos, causas, e/ou porquês, da ocorrência desta enfermidade na população deste país no sudeste da África. Uma reunião da organização não governamental Foundation for Community Support Services (FOCUS), que durou três dias, resultou em alguns fatos que ajudam a disseminar a doença no território malawiano, mais especificamente no distrito de Karonga. Este evento contou com funcionários da FOCUS, pessoas de outras ONGs, representantes do governo e da associação da juventude do distrito de Karonga e Tom Popp e Rodrigo Ferreira, da Restored Hope for Orphans and Vulnerable Children. Antes de pontuar esses fatos, vale citar que Karonga, segundo um documento fornecido pelo governo do distrito, é um dos seis hot spots de AIDS do Malawi, ao lado de Khala Bay, Mangochi, Lunzu, Mwanza e Kabungu.

Comecemos por algo complicado – acho que essa é a palavra ideal – de se discutir na África: prostituição. Apesar deles não falarem diretamente desta causa, ela pode ser tirada das entrelinhas nos vários discursos dos participantes. Por ser uma área do país perto da fronteira com a Tanzânia, Karonga é passagem para caminhões e similares, acontecimento que tem como tendência aumentar a prostituição. O mesmo fato pode ser assinalado em Mwanza, fronteira com a África do Sul.

Causas mais usualmente comentadas como sexo sem proteção, falta de recursos para tratamento, pouca informação e hospitais inacessíveis, principalmente nas áreas rurais, foram também foram comentados na reunião.

Terminemos com um motivo bastante discutido (para a minha surpresa) no evento da FOCUS: casamento precoce das mulheres. Um dado tirado do Malawian demografic and health survey, do ano 2000, expõe que malawianas se casam, em média, aos 15 anos de idade, enquanto as nascidas somente no distrito de Karonga, aos 18,9. Com isso, uma conclusão rápida que pode ser pensada é que há meninas no Malawi com seus 12 anos já enfrentando o complexo processo do matrimônio. Como comparação, a idade média do primeiro casamento de um malawiano e também de um homem de Karonga gira em torno de 25 anos.

Finalmente, podem-se citar as atividades desenvolvidas pelas ONGs da região para combater a AIDS, tomando como exemplo base a FOCUS. Na África, alguns países com alto índice de AIDS, e o Malawi é integrado neste quesito, adotam um ‘método’ chamado ABC. Destrinchando a sigla em inglês temos o A como Abstinance (abstinência), B significando Be faithfull (ser fiel) e C como Condom (camisinha).

Assim como acontece amplamente no Brasil, especialmente na época do Carnaval, um dos artifícios de prevenção da AIDS é distribuir camisinhas para a população. Porém, apenas esse ato não dá a certeza de que a sociedade mude alguns hábitos já enraizados na cultura local. Palestras nas comunidades (ou vilas, o que preferir chamar) sobre a AIDS/HIV e sua prevenção são largamente desenvolvidas, assim como o ensino destes fatos para certos grupos nas vilas para estes espalharem a mensagem em todos os cantos, entre todas as pessoas. Outro serviço prestado por algumas ONGs é o teste para a verificação da presença do vírus HIV para que, com isso, elas possam buscar o tratamento necessário.

O atrelamento dos vários programas para a luta contra a AIDS acaba por acudir praticamente todos os setores das nações africanas. Ao discutirem os objetivos e estratégias para o combate ao HIV, governos e ONGs enxergam que, para esta moléstia ser destruída, o ataque tem de atingir os males que corroem a base da sociedade. A fome e a falta de água e higiene acabam por formar os pilares das mazelas do globo.

Sobre fmvalmeida

Jornalista fascinado pela África, Esportes, Internet e tudo que esta profissão proporciona. Contato: fmvalmeida@yahoo.com.br Twitter: @fmvalmeida Facebook: /fmvalmeida
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6 respostas a O ABC da AIDS/HIV

  1. Tô gostando dos textos, Fernando!!! Parabéns!!! Só queria saber melhor como você relaciona a questão da AIDS ao casamento precoce de mulheres! Porque o fato de se casarem cedo é um fator de risco para a ampliação da doença?
    Outra coisa, qual a religião predominante? Como isso pode ajudar na prevenção da AIDS? Tem algo a ver com o problema da prostituição?
    Um abraço!!!

    • fmvalmeida diz:

      Por elas casarem precocemente, elas não tem acesso à educação portanto estão mais vulneráveis as questão relacionadas à AIDS. Elas não sabem, por exemplo, falar inglês.
      A religião predominante é a cristã, com todos seus ramos. Segundo a funcionária aqui da FOCUS, são mais ou menos 70% de critãos, 20 de muçulmanos e o resto de outras, como rastafari. As igrejas locais têm programas de educação e alimentação, além de outros que ajudam na prevenção da AIDS. Eu acredito que a religião ‘ajuda’ nos problemas da prostituição, pois, assim como a população, eles preferem não falar sobre isso.

  2. Gilberto Vieira diz:

    Fê! Tô te seguindo e tá bacana demais!!! Como Inacianos que somos, “coloque-se no lugar do outro – entre na cena”. Santo Inácio deixou esta experiência nos Exercícios Espirituais, que costumo elaborar também na minha vida, isto é, deixar de ser um observador e relator e passar a pensar com a cabeça do outro. Experimente essa experiência e tente pensar com a cabeça e ver com os olhos de um Malawiano – isso nos ajuda a entender melhor tudo na vida!!! beijos, Tio Beto

  3. Adriana diz:

    Fefê,
    tá arrasando! Escreve super bem…
    Lindo!

    Mas também fiquei com a mesma dúvida do tio Ricardo. Explica pra gente?

    Mais beijos

  4. As pessoas são fieis umas às outras? eu pergunto isso pq se elas forem fieis após o casamento, mas bisca-normal antes dele, a idade do casamento pode influenciar nos números da AIDS. Lógico que eu tô criando uma hipótese pra uma situação que eu não conheço. Mas se uma menina de 15 anos se casar virgem com um casa de 28 já conhecido da vida e já portador do HIV, eles criarão uma família inteira com AIDS. Se os dois tivessem 12 anos a propabilidade deles já terem tido contato com o HIV são menores, certo? Portanto, a solução é casar cedo. hahaha
    eu to zuando enquanto vou pensando nessas coisas, mas o primeiro comentario aqui é muito pertinente. Qual é a religião dessas pessoas? Isso pode ser importantíssimo pra entender a relação dessas pessoas entre elas mesmas, com o sexo e com a camisinha.
    Beijos e nós já estamos com saudades

  5. Sambinha diz:

    Representante da família do pai:
    A questão da AIDS na África realmente é bastante preocupante. Agora meu professor de biologia falou sobre algumas mulheres africanas que possuem resistência ao vírus da AIDS, ou seja, não são infectadas. Vou procurar saber mais sobre isso para você! Acho um bom tema.
    Amei o texto! Super bem escrito!

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